Apesar dos compromissos sobre o metano, governos apresentam planos pouco ambiciosos para reduzir as emissões do setor de resíduos.
23 de outubro de 2025 — Os governos estão ignorando ferramentas simples e eficazes para reduzir as emissões de metano provenientes dos resíduos, segundo uma análise da Aliança Global para Alternativas à Incineração (GAIA) sobre a mais recente rodada de planos climáticos nacionais (NDC, na sigla em inglês).
A GAIA examinou 14 NDCs apresentados ao órgão climático da ONU por países selecionados com base em seu nível de ambição e em seu alto potencial de reduzir emissões por meio de estratégias de lixo zero. Todos os países analisados haviam assinado o Compromisso Global sobre o Metano e a Declaração sobre a Redução do Metano Proveniente de Resíduos Orgânicos.
Embora quatro dos planos incluam elementos positivos, dez se mostraram fracos ou até prejudiciais. Nenhum país conseguiu aproveitar plenamente o potencial de redução de emissões e os benefícios sociais de uma estratégia eficaz de resíduo zero.
Principais constatações:
- O Brasil apresentou avanços significativos em relação ao seu NDC anterior, com uma base política sólida e medidas concretas para a gestão de resíduos orgânicos.
- Bangladesh, Chile, Colômbia e Nigéria deram maior destaque à transição justa, incluindo referências à capacitação profissional, ao desenvolvimento de habilidades e à atenção aos desafios enfrentados pelos trabalhadores informais.
- No entanto, a maioria dos planos não integrou os catadores e catadoras de materiais recicláveis, atores fundamentais para a implementação de estratégias de resíduo zero.
- Nepal, Uruguai, Colômbia, Marrocos e Bangladesh planejam estabelecer ou ampliar infraestrutura de incineração de resíduos para geração de energia (waste-to-energy), uma tecnologia que emite dióxido de carbono, enfraquece os esforços de reciclagem e elimina postos de trabalho.
“É positivo ver uma maior atenção ao potencial de mitigação do setor de resíduos nos planos climáticos nacionais”, afirmou Doun Moon, responsável por políticas e pesquisa da GAIA. “No entanto, muitos planos ainda se concentram na destinação final dos resíduos, em vez da prevenção ou recuperação de materiais, priorizando com frequência os lucros privados em detrimento das pessoas. Nossa pesquisa mostra que as iniciativas de resíduo zero lideradas pelas comunidades estão entre as formas mais rápidas e econômicas de reduzir as emissões de metano.”
O setor de resíduos representa 20% das emissões de metano de origem humana, um potente gás de efeito estufa. As boas práticas de gestão de resíduos — como separação na origem, compostagem, bioestabilização e uso de coberturas biológicas em aterros — podem reduzir essas emissões em até 95%, além de gerar empregos de qualidade.
De forma mais ampla, 70% das emissões de gases de efeito estufa vêm da economia material. Uma estratégia de lixo zero, baseada na hierarquia de reduzir, reutilizar e reciclar, pode diminuir as emissões em todas as etapas da cadeia de valor.
Os planos climáticos nacionais analisados foram apresentados por Bangladesh, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Etiópia, Quênia, Marrocos, Nepal, Nigéria, Panamá, Uruguai, Zâmbia e Zimbábue. O estudo foca países do Sul Global, que têm a oportunidade de evitar falsas soluções como a incineração e avançar diretamente rumo a modelos de resíduo zero, com o financiamento adequado. Outros países com perfil semelhante ainda não apresentaram seus NDCs. É possível consultar o mapa interativo da GAIA para ver a análise atualizada por país sobre a gestão de resíduos nos NDCs.
“Incentivamos os governos a adotar o resíduo zero como solução climática, com os catadores e as comunidades como protagonistas”, afirmou Mariel Vilela, diretora do programa climático global da GAIA. “A próxima conferência do clima, a COP30, é uma oportunidade para compartilhar histórias de sucesso e direcionar financiamento para as pessoas que impulsionam as mudanças no território.”
GAIA publicou recomendações políticas detalhadas para Chile, Indonésia e África do Sul com o objetivo de colocar em prática estratégias de lixo zero.
Contatos
- Doun Moon, responsável por políticas e pesquisa, GAIA: doun@no-burn.org
- Sonia Astudillo, responsável de comunicação sobre o clima global, GAIA: sonia@no-burn.org
- Camila Aguilera, responsável de comunicações para a América Latina: camila@no-burn.org
Recursos
- Rastreador de NDCs da GAIA
- Compromisso Global sobre o Metano
- Declaração sobre a Redução do Metano Proveniente de Resíduos Orgânicos
- De lixo zero a emissões zero: como a redução de resíduos pode mudar as regras do jogo na ação climática (pesquisa da GAIA)
- O metano importa: uma abordagem integrada para a mitigação do metano (pesquisa da GAIA)
Sobre GAIA:
GAIA é uma rede de grupos de base e alianças nacionais e regionais que representa mais de 1.000 organizações em mais de 100 países. Nosso objetivo é catalisar uma mudança global rumo à justiça ambiental, fortalecendo os movimentos sociais de base que promovem soluções para os resíduos e a poluição.Imaginamos um mundo justo e sem lixo, baseado no respeito aos limites ecológicos e aos direitos das comunidades, onde as pessoas vivam livres da carga da poluição tóxica e os recursos sejam conservados de forma sustentável, sem queimar nem enterrar resíduos.
